Cuidar de idoso : Ser Velho é lindo | Mirian Goldenberg | TEDxBarraDaTijuca

Ser Velho é lindo | Mirian Goldenberg | TEDxBarraDaTijuca

 Ser Velho é lindo | Mirian Goldenberg | TEDxBarraDaTijuca


Tradutor: Leonardo Silva   Revisor: Raissa Mendes


 Tudo que eu vou falar é resultado da minha pesquisa com 1,7 mil homens e mulheres, de mais de 60, mais de 70, mais de 80 anos. Atualmente, estou pesquisando aqueles que têm mais de 90 anos. A minha maior inspiração pra falar sobre a invenção de uma bela velhice foi o livro "A Velhice", de Simone de Beauvoir. Simone de Beauvoir dizia que velho é sempre o outro, pois as pessoas de mais idade não se enxergam como velhas. Mas ela alertava: "Velho não é o outro". Cada um de nós deveria se reconhecer no velho que é hoje ou no velho que será amanhã. Velho não é o outro; velho sou eu. Simone de Beauvoir, após descrever o dramático quadro do processo de envelhecimento, apontou um possível caminho para a invenção de uma bela velhice: ter um projeto de vida.

A obra do psiquiatra Viktor Frankl é um referência fundamental pra entender a importância do projeto de vida na invenção de uma bela velhice. Frankl foi prisioneiro de 1942 a 1945 em quatro campos de concentração. Seu pai, sua mãe, seu irmão e sua esposa grávida foram assassinados pelos nazistas. E ele se perguntava: "Por que eu consegui sobreviver?" E a resposta que ele encontrou foi: "Porque eu tinha um projeto de vida".

Seu projeto era escrever sobre essa dramática experiência no campo de concentração e criar uma terapia, baseada no Holocausto, que ajudasse todas as pessoas a encontrar o sentido das suas vidas, no amor, no trabalho ou até mesmo no sofrimento. Frankl escreveu, pra espanto de muitos, que nos campos de concentração havia humor. Ele acreditava que o humor era uma arma poderosa na luta pela sobrevivência. Por isso, ele combinou com um amigo do campo de concentração inventar uma piada por dia, pra se distanciar do sofrimento inevitável. Frankl morreu em 1997, aos 92 anos, e provou que ter projetos de vida e dar muitas risadas são armas poderosas pra invenção de uma bela velhice.

Após assistir cinco vezes ao mesmo show de Paul McCartney, eu perguntei pra um amigo meu de 77 anos por que ele, ao 75 anos, faz um show de três horas, cantando e tocando e dançando sem parar, se o público ficaria feliz com um show de apenas uma hora. Meu amigo me respondeu sorrindo: "Porque ele tem muito tesão no que ele faz".

Dá pra chamar Paul McCartney de velho? Dá pra chamar Chico, Caetano, Gil, Bethânia, Marieta Severo, Rita Lee, Fernanda Montenegro, Ney Matogrosso de velhos? Eles são exemplos de uma geração "ageless", sem idade, inclassificável, uma geração que revolucionou os comportamentos na década de 60. Eles continuam cantando, amando, dançando, trabalhando, criando, transgredindo tabus. Eles não se aposentaram de si mesmos, eles não se tornaram invisíveis. Mas não precisa ser uma celebridade pra inventar uma bela velhice. O que eu aprendi com os meus pesquisados de mais de 90 anos? As mulheres falaram muito mais sobre os seus medos, desejos e sofrimentos relacionados à velhice. As mulheres brasileiras, especialmente as mais jovens, têm pânico de envelhecer. Os homens falaram muito pouco do medo da velhice. Na bela velhice, eles querem continuar sendo úteis, ativos e produtivos, mas eles não querem trabalhar apenas por obrigação ou pra ganhar dinheiro; eles querem ter tesão no que eles fazem.

O lema pra uma bela velhice poderia ser: "Eu não preciso mais, mas eu quero". Os homens também querem ter mais tempo pra curtir a casa, a família, a esposa, os filhos e os netos. Eles querem ter tempo pra esse mundo do afeto que eles não puderam aproveitar quando eram mais jovens e estavam preocupados em ganhar dinheiro pra sustentar a família. Já as mulheres falaram de liberdade. Quando eu perguntei pras mulheres mais jovens o que elas mais invejam nos homens, elas disseram em primeiríssimo lugar: "Liberdade". Em segundo lugar, elas disseram: "Fazer xixi em pé". (Risos) Quando eu perguntei pros homens o que eles mais invejam nas mulheres, eles responderam simplesmente: "Nada". (Risos) Mas as mulheres mais velhas que eu pesquisei disseram categoricamente: "Este é o melhor momento da minha vida! Nunca fui tão feliz. É a primeira vez que eu posso ser eu mesma.

Nunca fui tão livre". E como elas conquistaram a liberdade tão desejada? Primeiro lugar, elas fizeram uma verdadeira faxina existencial. A faxina não é só jogar fora roupa que não serve mais, os cacarecos, as coisas inúteis; isso é o mais fácil. A faxina existencial é tirar das nossas vidas todas aquelas pessoas que nos fazem mal, só criticam, sugam a nossa energia, os verdadeiros vampiros emocionais. Em segundo lugar, elas falaram muito da importância das amigas na bela velhice. São as amigas que cuidam, que conversam, que escutam, que levam ao médico, que telefonam todos os dias pra saber como elas estão. As mulheres falaram muito mais das amigas do que dos maridos, dos filhos e até dos netos. As amigas são a família escolhida. Em terceiro lugar, elas falaram da importância de dizer não. As mulheres mais jovens têm muita dificuldade pra dizer não, porque elas querem agradar todo mundo, querem cuidar de todo mundo, reclamam que não têm tempo pra elas.

Mais velhas, elas aprendem a dizer não: "Agora eu vou agradar em primeiro lugar a mim mesma, vou cuidar de mim, o tempo é pra mim". Essa mudança de foco é uma verdadeira revolução. Elas também disseram... as minhas pesquisadas, tá, não sou eu falando... que elas aprenderam a ligar o botão do "foda-se". (Risos) Não é que elas ficam dizendo "foda-se" pra todo mundo, foda-se pro que outros pensam; não é isso.

É um "foda-se" interior: "Vão achar que eu sou uma velha ridícula porque eu vou à praia de biquíni?" (Risos) "Vão achar que eu sou uma velha sem noção porque eu gosto de dar beijo na boca?" (Risos) "Vão achar que eu sou uma velha baranga porque eu ainda uso minissaia?" Esse "foda-se" interior é libertador. Experimentem. (Risos) Por último, elas disseram que aprenderam a rir e brincar muito mais. Sessenta por cento das mulheres mais jovens que eu pesquisei disseram que invejam a capacidade masculina de rir de qualquer bobagem. Elas querem rir, ser mais leves, brincar mais. Perguntei: "Então por que vocês não riem?" "Porque eu não tenho tempo." "Porque eu tenho medo da opinião dos outros." Mais velhas, elas aprendem a brincar e rir muito mais, especialmente delas mesmas.

Bauman disse que há dois valores fundamentais pra uma vida feliz. Um é a segurança. O outro é a liberdade. Para Bauman, não seria possível uma vida feliz na ausência de qualquer um dos dois. Liberdade sem segurança é caos. Segurança sem liberdade é escravidão. A bela velhice depende tanto da sensação de segurança quanto da conquista da liberdade, como me disse uma pesquisada de 75 anos.

Ela dizendo: "Não gosto quando dizem que a velhice é a melhor idade ou a pior idade. Não é melhor nem pior; é simplesmente diferente. Com saúde, dinheiro e bons amigos, dá pra ser feliz em todas as fases da vida. Por que não agora? Hoje eu posso ser eu mesma pela primeira vez na vida. Eu sou livre pra ser a criança que eu sempre fui e continuo sendo. Posso rir, brincar e sonhar muito mais". Então, eu quero contar um sonho pra vocês que eu tive recentemente. No sonho, eu dizia pra todos os meus alunos da UFRJ: "A única categoria social que todo mundo é é velho. Somos classificados como homem ou mulher, negro ou branco, homo ou heterossexual, mas velho todo mundo é, hoje ou amanhã. O jovem de hoje é o velho de amanhã. Por isso, como nos movimentos libertários do século passado, do tipo 'Black Is Beautiful', deveríamos vestir uma camiseta com os dizeres: 'Eu também sou velho, e velho é lindo'".

No sonho, fomos em passeatas pra Copacabana, todos juntos, os velhos de hoje e os velhos de amanhã, vestindo camiseta e carregando cartazes com os dizeres: "Eu também sou velho, e velho é lindo!" Na manifestação, inspirada em Martin Luther King, eu fiz um discurso apaixonado: "Eu tenho um sonho. Eu tenho um sonho que, um dia, o velho será considerado lindo, e que iremos viver em uma nação em que as pessoas não serão julgadas pelas rugas da sua pele, e sim pela beleza do seu caráter. Somos livres, enfim". Acordei de madrugada repetindo alegremente a frase: "Somos livres, enfim!", e com vontade de ir pra Copacabana me manifestar gritando: "Eu também sou velha, e velha é linda!" (Risos) É assim que eu quero terminar, dizendo a todos vocês, os velhos de hoje e os velhos de amanhã, que eu também sou velha, e velha é linda. Somos livres, enfim. (Aplausos) .




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