Cuidar de idoso : Os riscos das quedas para a saúde dos idosos

Os riscos das quedas para a saúde dos idosos




  Os riscos das quedas para a saúde dos idosos


 Doutora Kelem de Negreiros Cabral, médica geriatra, especialista pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e Associação Médica Brasileira. Graduada em medicina pela UFRN. Doutora em ciências médicas pela FMUSP. Também faz parte da equipe do Prev-quedas, do HC-SP.

Queda é um evento extremamente comum em indivíduos idosos. Então cerca de 30% dos indivíduos acima de 60 anos caem pelo menos uma vez ao ano. E sabemos que 15% desses eventos são recorrentes. É um evento que é extremamente impactante na saúde da pessoa idosa, porque tem associação com risco de fratura, declínio funcional, institucionalização, inclusive podendo estar relacionado à morte. É oneroso.

Os custos de saúde pública, para os cuidados com aquele idoso que cai acabam sendo extremamente altos. Tem tanto os custos diretos, relacionados à queda, fraturas, que é a sua principal consequência, então, os custos de internação hospitalar, quanto os custos indiretos, que são aqueles, muitas vezes, os cuidadores que precisam parar de trabalhar para cuidar daquele idoso que caiu. O evento queda é algo multifatorial. Então, a sua grande dificuldade em fazermos essa abordagem do evento queda, já que vários fatores estão envolvidos na possibilidade desse indivíduo vir a cair. Para começar a lembrar sobre esse tema queda, vamos lembrar para vocês um pouco da definição do que gerontologicamente nós consideramos queda.

Queda é a mudança de posição do indivíduo para a posição abaixo da posição inicial, estando associada ou não a consequências. Isso é só para lembrarmos que o indivíduo não precisa ter atingido o solo para que consideremos que esse indivíduo tenha caído. Se ele mudou de posição, está andando e tropeçou, caiu no sofá, não chegou a cair no chão, isso acabamos considerando um evento queda.

Pode ser um sinal marcador de que algo não vai bem com a saúde desse indivíduo idoso. Nós excluímos dessa definição algumas outras causas externas que podem estar associadas a outros fatores de risco, então, síncope, um acidente vascular encefálico, atropelamento, o indivíduo está fazendo um exercício de alta performance, essas situações em que o indivíduo muda de posição para o nível inferior ao inicial, mas, na verdade, não é aquela síndrome gerontológica que é o objeto do nosso estudo e da nossa conversa hoje e que a gente exclui da definição. Quando falamos em termos de epidemiologia, só para lembrarmos, a epidemiologia pode variar de acordo com a idade, com o gênero, o local que esse indivíduo está. Então assim, acima de 65 anos, sabemos que em torno de 30 a 40% caem pelo menos um vez ao ano.

Metade desses indivíduos que caem vão apresentar uma nova queda. O fato de um indivíduo idoso ter caído é um marcador de atenção para a saúde dele, nós temos tem que ficar atento. É um indivíduo que merece uma abordagem especial e mais detalhada em relação à sua saúde. Aqueles indivíduos muito idosos, acima de 80 anos, eles têm uma chance maior de cair, 50% desses indivíduos vão cair, pelo menos uma vez. Você tem uma mudança também de prevalência de quedas em relação a gênero. Sabemos que mulher acaba caindo mais do que homem. Precisamos também ter uma atenção especial para as mulheres idosas. Além do quê, as consequências, elas acabam fraturando mais, apesar de morrerem menos. Homem, quando cai, fratura, morre mais do que a mulher, mas mulher quebra mais, fratura mais.

Quando imaginamos, se estamos avaliando o indivíduo, na maioria das vezes, todo mundo aqui, acho que a grande maioria trabalha em unidade básica, ou não sei se trabalha em hospital também, mas o evento queda também não pode ser esquecido nesses outros níveis que são além da comunidade, da questão hospitalar, e queda em ambiente de instituição de longa permanência. Indivíduos hospitalizados, cerca de 20% caem durante a internação. Acaba sendo um evento adverso grave durante a internação e que precisa de medidas de controle. É um índice de qualidade hospitalar a presença de quedas. E a questão de institucionalização. A queda é tanto um motivo importante de institucionalização, então, grande parte dos indivíduos que são institucionalizados, às vezes, é decorrência de alguma queda, fratura ou outra dificuldade acaba sendo institucionalizado. E quando o indivíduo está dentro da instituição, ele acaba sendo um indivíduo com maior risco de apresentar novos eventos.

Quando pensamos em queda, na verdade, ela é uma das maneiras mais fáceis de entendermos o que vem a ser uma síndrome geriátrica, porque ela exemplifica muito bem o que é uma síndrome geriátrica. Por que o que, na realidade, chamamos de síndrome? Síndrome, na verdade, é um conjunto de sinais e sintomas em que você habitualmente tem uma etiologia que pode ser conhecida ou não, com a patogênese que pode ser bem estabelecida ou não e que manifesta com vários sinais e sintomas. Um exemplo muito prático de vermos isso, por exemplo, é o HIV, a síndrome da imunodeficiência adquirida. Ela tem uma etiologia definida, é o vírus HIV. Tem uma patogênese bem definida, que você tem o vírus que infecta linfócitos 3º e 4º e que se manifestam com vários sinais e sintomas. A síndrome geriátrica, na verdade, o que ela é? Ela é uma manifestação conjunta, que consideramos a queda, é a manifestação conjunta, que vem de uma etiologia múltipla, são vários fatores de risco, que é o que nós vamos tentar conversar um pouquinho aqui hoje, que interagem de uma forma extremamente complexa, difícil de entender como eles interagem entre si.

E que se manifestam de uma única forma, que é a síndrome geriátrica. O protótipo dela é o evento queda, quando, na verdade, o que falamos é que a queda é a ponta do 'iceberg' na manifestação da saúde do idoso. É um indivíduo que pode ter instabilidade, ela pode se manifestar através de etrogenia, indivíduos com alterações cognitivas que podem estar manifestando o início de algum quadro demencial com o evento queda.

Pode ser alteração de humor. Então, indivíduos deprimidos, que fazem uso de medicação antidepressiva, aumentam o risco de cair. Às vezes, na verdade, o indivíduo está caindo em consequência de alguma outra situação. A queda é apenas uma manifestação de algo que está a mais acontecendo na saúde daquele idoso E fatores ambientais, que é extremamente importante nós estarmos também avaliando. Os fatores ambientais, tanto intradomiciliares quanto os fatores ambientais em termos de sociedade. Acesso a ônibus, calçadas e vários outros fatores de riscos ambientais que podem estar aumentando a chance desse indivíduo vir a cair. E eles se correlacionam com o termo fragilidade, que é uma outra grande condição geriátrica estudada hoje em dia. Então a queda, na verdade, o que ela vem a ser? Ela pode ser uma manifestação de uma doença aguda, às vezes, o indivíduo pode apresentar... outro dia, atendemos o caso de um idoso de 90 anos de idade, que foi para o pronto-socorro porque caiu e bateu a cabeça, mas, na verdade, a queda, naquele caso, era a manifestação de um indivíduo que estava com dengue, começou a fazer febre, desidratou, fez hipotensão e caiu.

Então, o que levou ao pronto-socorro foi o evento queda mas, na verdade, o que o levou a cair foi a desidratação em consequência de uma febre secundária ao quadro de dengue. A queda pode ser um manifestador de uma doença aguda, ela pode ser uma manifestação de uma doença crônica, o indivíduo começa a desenvolver doença de Parkinson, começa a ter instabilidade postural, tremor, dificuldade de deambulação e ele começa a manifestar a doença como um aumento do risco de ele vir a cair. Podem ser mudanças relacionadas ao próprio envelhecimento, algumas alterações que são próprias do envelhecimento aumentam a chance desse indivíduo vir a cair e daí ficarmos atentos quando vamos fazer uma avaliação geriátrica gerontológica desse paciente, para que possamos identificar quais são aqueles fatores de risco que realmente são passíveis de intervenções do profissional de saúde e o que podemos fazer quando estamos avaliando esse indivíduo. Quais são aquelas mudanças associadas ao envelhecimento normal? Aqui falamos de senescência. O que fazemos na hora que o indivíduo envelhece? O envelhecimento normal, não estou falando de envelhecimento patológico, seja secundário a algumas doenças que aumentem a chance desse indivíduo vir a cair.

Mas, sim, o envelhecimento normal. O que ele tem? Na verdade, se tem uma redução da velocidade de marcha, um indivíduo mais lentificado, aquele indivíduo idoso. Você tem uma flexão plantar diminuída na fase final de apoio. O que vem a ser isso? Na verdade, ele anda, aqui, ele anda, a flexão plantar diminuída na fase final de apoio, ele anda arrastando um pouco mais os pés. Então, aquela questão de pequenos obstáculos, aquele tapetinho ou aquele pequeno degrau que, na verdade, não eram um fator de risco para o indivíduo mais jovem, mas que passam a ser um fator de risco para um indivíduo idoso. E diminuição do balanço dos braços, da rotação da pélvis e do apoio unipodal.

Na verdade, o indivíduo anda com os braços um pouco mais próximos ao corpo, tem menos balanço na sua marcha. São algumas alterações, próprias da marcha do envelhecimento que aumentam a chance de o indivíduo vir a cair. Na verdade, é uma marcha um pouco parecida com a marcha parkinsoniana, é um pouco parecida, a marcha parkinsoniana tem mais fatores patológicos associados, mas que, na verdade, esse próprio envelhecimento normal pode se associar ao risco desse indivíduo vir a cair. Além do quê, você tem redução da adaptação visual ao escuro. Aquela história do indivíduo acordar à noite para ir ao banheiro.

E levanta rápido, não espera ter a acomodação visual que você precisa para poder se adaptar a essa mudança de claro e escuro, e, na hora que ele levanta para ir ao banheiro, há um obstáculo lá no meio do caminho e acaba caindo. Menor percepção da visão de profundidade. Quando é que isso vem a ser um risco? Na hora de você descer escada. Você não consegue perceber o nível de profundidade de um degrau e outro, acaba pisando em falso e pode vir a cair. Redução da visão de contraste, em situações em que você precisa identificar contraste entre os obstáculos que estão na sua frente, para você andar. Então, pode aumentar a chance de você cair. E redução de visão periférica. Essas são algumas alterações próprias do envelhecimento, mas que podem ser exacerbadas por algumas doenças, e aí você aumenta a chance desse indivíduo vir a cair. As principais consequências da instabilidade postural e queda, na verdade, podem ser restrição de atividades, então, o indivíduo começa a deixar de fazer algumas atividades ou por vontade própria ou por restrição familiar, que acaba não deixando ele sair mais de casa, ir ao supermercado ou fazer mais nada sozinho, porque tem medo do jeito que ele anda ou medo de que ele venha a cair.

O próprio indivíduo tem medo de cair, e esse medo de cair também acaba aumentando a chance de ele vir a cair. Pode ter lesões leves, escoriações, hematomas, fratura que, na verdade, é a consequência mais dramática, hospitalização, síndrome de ansiedade pós-queda, o indivíduo pode desenvolver um transtorno pós-traumático, em relação ao risco de ele vir a cair. Institucionalização ou óbito. Na verdade, todas essas são consequências danosas na saúde do idoso e das pessoas que cuidam dele também. Entre as principais consequências, aquela que é mais dramática e que está diretamente relacionada ao alto custo em saúde pública, são as questões das fraturas. Então, se correlaciona muito, a osteoporose aumenta a prevalência na população idosa, você tem indivíduos com osteoporose que apresentam maior risco de queda e apresentam maior chance de fratura. A fratura de fêmur é a consequência mais dramática da queda. Sabemos que é aquela que tentamos evitar, porque ela está correlacionada diretamente com mortalidade dessa população. Cinco porcento das quedas resultam em fraturas, sejam elas vertebrais ou não-vertebrais, todas as fraturas.

Um porcento é a fratura de fêmur, apesar de pouco prevalente, ela traz consequências gravíssimas, mas se olharmos pelo outro lado, na verdade, quando vemos, um porcento dos indivíduos que caem, sofrem fratura de fêmur, mas 90% das fraturas de fêmur são consequências de indivíduos que vieram a cair. Então, se conseguirmos abordar esse indivíduo que cai, conseguimos prevenir queda, tratamos junto a osteoporose, quando possível, acabamos reduzindo essa incidência de fratura, e esse é um dos grandes alvos, inclusive do nosso grupo de estudo, o Prev-quedas Brasil, que é de tentar estabelecer medidas de prevenção de quedas, para que possamos mudar esse desfecho na saúde dessa população.

Só para termos uma ideia, quando fazemos um comparativo entre algumas outras doenças crônicas e fraturas em mulheres, se compararmos câncer de mama, AVE, infarto, e juntar todas elas, na verdade, a mulher morre mais de fratura do que de câncer, AVE e infarto do miocárdio. Na verdade, temos medo, pensamos muito no câncer, no infarto, no AVE, mas acaba esquecendo que o que pode matar mais é uma "simples" fratura de fêmur. E quanto podemos ter medidas de intervenções importantes, começando da unidade básica de saúde, no atendimento domiciliar desse indivíduo, em pequenas orientações que podemos fazer e ter um desfecho extremamente diferente na saúde dessa pessoa. Então, na verdade, o foco da prevenção de fratura deve mudar, falamos muitas vezes em osteoporose, tratar a osteoporose, mas o desfecho indesejado é a fratura, então, o momento de agir é quando vemos o risco de que aquele indivíduo tem para cair Esse é o momento exato de agir, em que você identifica o fator de risco para a queda e pode estar avaliando melhor esse indivíduo.

Mas como é que eu avalio? O que é que eu tenho que perceber nesse indivíduo que está caindo? Na verdade, o que temos? Temos uma interação de fatores de risco que fazem com que esse indivíduo possa vir a apresentar queda. São aqueles fatores que chamamos fatores de risco predisponentes, precipitantes e fatores ambientais. Eu prefiro separar dessa forma, mas há quem separe em fatores de risco intrínsecos e fatores de risco extrínsecos. Na verdade, são formas didáticas de você separar os fatores de risco que esse indivíduo venha a apresentar ao cair. São os fatores de risco que podem aumentar a chance desse indivíduo vir a cair, mas que fazem com que, dessa forma, eu imagino que você consegue avaliar de uma forma mais didática mais fácil, inclusive, de avaliar as chances que esse indivíduo tem de vir a a apresentar um evento queda. Então, o que é que acontece? Como eu tinha falado lá no começo, lembrar que queda é uma síndrome geriátrica, em que você tem uma interação de múltiplos fatores de risco de uma forma extremamente complexa, que se manifestam como uma queda, então, o que é que acontece? Habitualmente você tem as características próprias daquele indivíduo, são as características individuais que vêm a ser o quê? Aquelas mudanças associadas à idade, de que já falamos aqui quais são elas, algumas doenças crônicas que aquele indivíduo tem, pode ser um indivíduo diabético que tem uma neuropatia diabética, pode ser um indivíduo com incontinência urinária, pode ser um indivíduo com um Parkinson, alguma doença, características individuais daquele paciente.

Há os riscos ambientais, aquele ambiente com escada, tapete, cheio de obstáculo, cachorro enrolando nos pés, brinquedo de neto no chão, buraco na calçada, então, todos os riscos ambientais. Efeito de medicamentos, introdução de novos medicamentos, principalmente aqueles com atuação no sistema nervoso central, medicamento para dormir e antidepressivo ou tratamento para síndrome demencial, são todos efeitos de medicamentos que podem aumentar a chance desse indivíduo vir a cair. Às vezes medicamentos para tratamento de idoso, de opioide, ou até mesmo o uso de anti-hipertensivos, de uma forma inadequada, também pode aumentar a chance desse indivíduo vir a cair.

Na verdade, a polifarmácia, ou seja, o uso de 5 ou mais medicamentos, independentemente de você ter a presença de um psicotrópico ou não ali, você também está aumentando a chance desse indivíduo vir a cair. Então, a prescrição adequada, o uso correto de medicamento, também deve fazer parte da avaliação desse paciente, porque, se você tem um ambiente que propicia o risco de queda, você tem um indivíduo que envelheceu, tem as mudanças associadas à idade, tem algumas doenças que favorecem o risco de ele cair, tem o uso de medicamentos que aumentam a chance desse indivíduo vir a cair, e ele tem um evento precipitante, uma doença aguda ou internou, ou um período de alta hospitalar. Ou é um indivíduo que tem todas essas características e tem um comportamento de risco, um indivíduo que acha que, apesar de tudo isso, está ótimo e começa a fazer atividades em casa, sobe em banco, ou começa a fazer algumas atividades de risco maior, esse indivíduo começa a manifestar o evento queda.

Daí, você conseguir avaliar todos esses fatores é extremamente importante. É difícil, mas é possível. O que nós precisamos entender? Os fatores de risco, quando eles vão aumentando... Se você tem um fator de risco e se você tem 4 fatores de risco, não significa dizer que aquele indivíduo que tem 4 fatores de risco tem 4 vezes mais chances do que um indivíduo que tem apenas um fator de risco para queda. Como tínhamos falado, na síndrome geriátrica, esses fatores de risco interagem de uma forma muito complexa. Então, quando os fatores de risco vão-se somando, o risco para esse indivíduo vir a cair, na verdade, passa a ser um risco exponencial, não é um risco que vai se somando de uma forma individual.

Então, por exemplo, um indivíduo que tem um fator de risco tem 19% de chance de vir a cair em um ano, aquele indivíduo que tem mais de 4 fatores de risco, a chance de ele vir a cair passa a ser de quase 80% de risco de ele vir a apresentar um novo evento queda. Então, como é que eu abordo esse indivíduo com risco de queda ou não? Esse é um algoritmo sugerido pela Sociedade Americana de Geriatria e Gerontologia que sugere que a todo indivíduo acima de 60 anos você deva perguntar: "O senhor caiu no último ano?".

Essa é uma pergunta básica, fácil, e que todo profissional de saúde pode fazer: "O senhor caiu no último ano? Sim ou não?" Se o indivíduo tiver caído, você vai avaliar: Foi uma queda única? Teve lesão? Teve Trauma? Teve alguma outra coisa? É um indivíduo que tem uma marcha boa? Foi uma queda acidental? Provavelmente eu, com menos de 40 anos de idade, cairia do mesmo jeito? Então na verdade, se isso foi, é um indivíduo que pode orientar, "Olha, o senhor precisa ter cuidado, porque queda pode ser um evento grave." Você faz as orientações, mas isso seria suficiente. Agora, se foi um indivíduo que caiu, teve mais de duas quedas no último ano, tem algum distúrbio de marcha, ou que tenha tido alguma consequência relacionada à queda, ou que foi um indivíduo que quando caiu, foi atendido na emergência, esse indivíduo precisa de uma avaliação multidimensional de todos os fatores de risco relacionados à queda.

E o vem a ser essa avaliação multidimensional? O que precisamos perguntar? O que precisamos avaliar? Precisamos avaliar as circunstâncias da queda, onde ele caiu, foi dentro de casa, foi fora de casa, foi em um lugar conhecido, foi de manhã, foi de noite, foi na transição do dia para a noite, o que ele estava fazendo na hora em que ele caiu, havia algum fator ambiental, o ambiente estava desorganizado de alguma forma diferente do habitual, ele teve algum sintoma pré-queda ou pós-queda? Porque, na realidade, precisamos pensar no diagnóstico diferencial. Será que foi queda ou será que foi uma síncope? Será que ele teve um AVE ou será que foi alguma outra coisa? Lembrando da definição de queda de que tínhamos falado? Sentiu alguma coisa antes de cair? Teve palpitação, dor no peito? Turvou a vista? Sentiu alguma outra coisa diferente? Fazer o inventário medicamentoso. Quais remédios o senhor está usando? Modificou a medicação nas duas últimas semanas? Teve alguma prescrição diferente da habitual? Tomou algum remédio por conta própria? Houve alguma mudança na sua prescrição? Quais são as doenças que esse indivíduo tem? Tem diabetes? Tem incontinência urinária? Tem hipertensão? Como estão tratamento da tireoide? Colesterol? Tem tontura? Tem dor crônica? Que são situações que aumentam a chance desse indivíduo vir a cair.

Avaliar a acuidade visual. Esse indivíduo enxerga? Os óculos estão adequados? Será que ele não tem indicação de operar a catarata? Sabemos que a intervenção visual, em relação à cirurgia de catarata, reduz muito a chance desse indivíduo vir a cair. Então, se eu fizer uma simples medida de encaminhar esse indivíduo para o oftalmologista e operar a catarata, eu não vou conseguir resolver o problema dele? E fazer o exame neurológico. Ver sensibilidade, propriocepção. Será que tem algum deficit motor? Será que tem alguma outra coisa que está aumentando a minha chance desse indivíduo vir a cair? Exame cardiovascular, verificar pressão arterial. Será que esse indivíduo tem hipotensão postural? Na hora que ele se levanta, será que a pressão não está caindo e isso está aumentando a chance de ele vir a ter queda? Como é que está o pé? Será que não tem alguma deformidade no pé? Joanete, calo, alguma outra coisa? Sapato.

Será que o sapato desse idoso não está usado de uma forma inadequada? Ou, às vezes, não está muito apertado Ou é um sapato que escorrega? Ou o solado é que é inadequado? Avaliar a capacidade funcional e mental. Será que esse indivíduo está começando a desenvolver um quadro de uma síndrome demencial e a queda está sendo uma manifestação desse quadro? A aplicação também da avaliação do estado mental, como exame de triagem. Avaliação de óculos, será que esse óculos está adequado? A lente é bifocal. Como está isso? O uso do dispositivo auxiliar de marcha.

Como estão todas essas avaliações do idoso? O diagnóstico, você não tem um teste único, a avaliação é um pouco difícil, porque você não tem uma avaliação rápida, e o que se sugere, na verdade, são algumas avaliações em que você precisaria ter em mão espaço, tempo, uma cadeira, um cronômetro e uma fita métrica. Há alguns testes que acabamos utilizando para avaliar capacidade funcional, velocidade de marcha, risco desse indivíduo vir a cair, na verdade, sempre brincamos, quando há muita coisa, é porque nada serve direito.

E é isso mesmo o que acontece aqui. Temos vários instrumentos de avaliação porque, na realidade, nenhum tem uma boa acurácia na avaliação da chance desse indivíduo vir a cair. Eu vou falar um pouquinho para vocês, na verdade, da velocidade de marcha, que é um dos testes que acabamos utilizando, porque é fácil de fazer. Você precisa de poucos instrumentos, e ele nos traz informações não apenas em relação à probabilidade de ele vir a cair, mas em relação à saúde global desse indivíduo. Sabemos que quanto mais veloz esse indivíduo é, melhor é a performance física dele e melhor o nível de saúde. Então, a velocidade de marcha menor do que 0,7 m/s se associa à morte, hospitalização e queda.

Outro teste que acabamos utilizando é o "Timed up and go test". O indivíduo fica sentado em uma cadeira, anda, caminha 3 m, volta e senta. Cronometramos e vemos o tempo que ele gasta para executar tal atividade. Quanto mais demorado ele é para executar este teste, maior a chance desse indivíduo vir a cair. Há um valor de corte para cada uma das idades, em relação a sexo também, mas, de uma certa forma, um TUGT >13,5 seg aumenta a chance desse indivíduo vir a cair. E qual é o objetivo da prevenção de quedas, quando estamos avaliando esse indivíduo que vem a cair? Na verdade, o objetivo de prevenir queda é o quê? É você minimizar o risco, sem comprometer mobilidade e independência funcional.

Porque qual é uma medida muito "fácil" de nós prevenirmos queda? É mandar o idoso não fazer nada. "Fique aí, sentadinho, não faça nada, eu faço tudo por você, e você não vai mais cair." Na verdade, esse não é o nosso objetivo na prevenção, principalmente em relação à promoção de saúde e qualidade de vida. O que é que nós queremos? Queremos que ele se mantenha ativo, fazendo suas atividades da forma mais independente possível, mas com segurança e baixo risco para vir a apresentar novas quedas. Esse é o nosso objetivo quando nós falamos em prevenção de queda. E qual é a melhor estratégia? É aquela intervenção única? Você identifica um único fator de risco e interage nele? Ou você fazer essa avaliação multidimensional? Na verdade, a maior eficácia é a avaliação multidimensional, que seria aquilo que eu tinha comentado para vocês, fazer toda essa avaliação, identificar quais são os fatores de risco e tentar introduzir intervenção para cada um desses fatores de risco que você identificou.

Entretanto, essa é uma avaliação demorada, cara, que você depende de uma equipe multiprofissional, uma equipe, na verdade, multidisciplinar, que trabalhe em conjunto e que consiga propor um bom resultado para esse paciente. Não é fácil, mas, mais uma vez, é possível. Quais seriam os componentes da intervenção? Você precisa adaptar ou modificar o ambiente. Treinar equilíbrio, marcha e força. Suplementar vitamina D, em torno de 1.000 U/dia. Esses são componentes da intervenção com nível de evidência A em relação à intervenção.

Retirar drogas ou medicações psicoativas, então, fazer sempre revisão de medicação de paciente deve fazer parte da abordagem. E, às vezes, além de revisar medicamento, orientar. Às vezes, o que está na receita não é o que o paciente está usando. Às vezes a receita está lá, às vezes a letra pode ser um pouco incompreensível, mas, independentemente disso, o paciente não consegue, muitas vezes, seguir exatamente o que está escrito, o que é de manhã ele toma à noite, e acaba mudando o horário de vários medicamentos ou diz assim: "hoje eu não quero tomar esse, vou tomar só aquele". Acaba modificando, o que também pode ser maléfico na sua saúde. Retirar medicamentos, sempre que possível, deve fazer parte da intervenção.

Verificar se o indivíduo tem hipotensão postural e tratar a hipotensão postural. Tratar problema no pé. Corrigir calçados. E orientação em relação à educação em queda também é uma intervenção interessante que pode ser feita na avaliação desse indivíduo que cai. Exercício. Preferencialmente, exercício supervisionado, com equipe treinada, uma equipe habilitada em exercícios para prevenção de quedas. Eles podem ser realizados em grupos ou individualmente. Falamos que, do mesmo jeito que você tem dose de tratamento, de medicação anti-hipertensiva, você tem dose de exercício de que aquele indivíduo precisa. Então, ele precisa de, pelo menos, 2h por semana, ou seja, 8h por mês, para que ele venha a reduzir a chance de ele vir a cair. E o melhor exercício, na verdade, que esse indivíduo vem a ter é um treino de equilíbrio progressivo. Na realidade é o quê? É você desafiar, de uma forma segura e supervisionada, o equilíbrio desse paciente. Exercício para prevenção de quedas não dá para imaginar que sejam exercícios que possam ser feitos sentados.

O exercício precisa ser feito em pé, desafiando o equilíbrio desse paciente, andando, para que ele possa treinar o seu equilíbrio. Modificações ambientais que também devem ser uma avaliação importante na abordagem desse indivíduo que vem a cair. Então, armários à média altura, porta com puxador. Além de modificação ambiental, uma outra coisa extremamente importante, na avaliação desse indivíduo que cai, é em relação a comportamento de risco. Às vezes você tem um indivíduo que não consegue perceber a sua capacidade física na execução de determinadas tarefas e continuar a executar algumas tarefas em que pode estar colocando esse indivíduo em risco. De uma forma geral, o que é que vimos aqui? Quando falamos em avaliação do risco desse indivíduo vir a cair e medidas de intervenção, muito mais do que tecnologia, vocês viram que eu não falei de nenhum exame, uma tecnologia nova, ou alguma outra coisa que você precisasse saber ou aprender ou encaminhar para esse paciente.

Na verdade, o que os pacientes precisam, o que precisamos para reduzir a chance desse indivíduo vir a cair e fazer uma avaliação do risco de queda desse paciente, não são novos medicamentos, não são novos equipamentos. Na verdade, necessitamos de equipes multiprofissionais, bem treinadas e habilitadas para avaliar esses pacientes. Se conseguirmos isso, seja em todos os níveis de atenção à saúde da pessoa idosa, desde o nível de atenção primário, secundário, até o nível terciário, ter equipes bem treinadas para avaliar as chances desse indivíduo vir a cair. Provavelmente nós teremos resultados eficazes na prevenção de quedas dessa população. Não é à toa que estamos todos aqui reunidos durante esse dia para falar apenas desse tema quedas, que é algo de extrema importância para nós.



 Terceira Idade, Idosos, Saúde, riscos, acidentes domésticos

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